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Autor de discografia de David Bowie fala à revista Época

David Bowie nos deixou no dia 10 de janeiro. Mas o seu legado ficou para sempre na música e na cultura pop mundial.

O livro “O homem que vendeu o mundo – David Bowie e os anos 70“, do inglês Peter Doggett é um importante registro da década mais criativa e polêmica da carreira do camaleão.

Confira abaixo a entrevista que o autor Peter Doggett deu à revista Época, públicada em 11/01/2016.

“Bowie provou que canções comerciais podem ter letras desafiadoras”, diz crítico

Autor do livro “David Bowie e os anos 70 – O homem que vendeu o mundo”, Peter Doggett discute o legado que o músico britânico deixa para o mundo da arte

Neste domingo (10), o músico britânico David Bowie morreu, após lutar secretamente contra um câncer por 18 meses. Ele havia acabado de completar 69 anos, dando um presente aos seus fãs. No último dia 8, data de seu aniversário, ele lançou seu derradeiro disco,Blackstar (Sony, R$49,90), aplaudido pelos críticos.

Bowie marcou a cultura pop com sua capacidade de reinventar-se constantemente, pela qual ganhou o apelido de “camaleão do rock”. Ele encarnou diversos papéis, tanto em seus discos e clipes (seu personagem mais marcante foi Ziggy Stardust, um roqueiro de cabelo laranja vindo do espaço), quanto em filmes e programas de televisão (ele chegou a dublar um personagem lunático do desenho animado Bob Esponja). Sua última aventura foi escrever o musical Lazarus, que segue em cartaz na Broadway até o dia 20.

Ninguém pode rivalizar com Bowie, pelo número de pessoas que ele inspirou e o fato de ele ser uma inspiração por mais de 40 anos”
PETER DOGGETT

Polivalente, Bowie passeou por diversas expressões da arte com competência ímpar. O crítico e historiador musical inglês Peter Doggett, autor do livro David Bowie e os anos 70 – O homem que vendeu o mundo (Nossa Cultura, 572 páginas, R$59,90), lançado em 2011 na Inglaterra e no ano passado no Brasil, explica por que o astro da cultura pop adotou a característica camaleônica e discute seu legado para o mundo da arte.

ÉPOCA – Qual foi a importância de David Bowie para a música e a arte em geral?
Peter Doggett - Bowie talvez seja o artista individual mais influente a surgir na música popular moderna. Outras pessoas como Frank Sinatra, Elvis Presley, Bob Dylan e Madonna tiveram uma influência enorme. Mas ninguém pode rivalizar com Bowie, pelo número de pessoas que ele inspirou e o fato de que ele vem sendo uma inspiração há mais de 40 anos.

Ele é importante de tantas formas. Bowie introduziu a cultura popular tradicional em muitos tipos diferentes de experimentações artísticas: Andy Warhol e o movimento Pop Art; o surrealismo; a ficção científica de aventura; a música eletrônica; o teatro avant-garde; e da moda inovadora.

Ele foi um modelo para aqueles que se sentiam como estranhos no ninho – pessoas confusas sobre sua sexualidade ou que não se encaixavam em sua família, trabalho ou sociedade”
Peter Doggett

Bowie foi um modelo para aqueles que se sentiam como estranhos no ninho – pessoas confusas sobre a sua sexualidade ou que não se encaixavam em sua família, trabalho ou sociedade. Acima de tudo, provou que era possível para um astro pop criar canções extremamente comerciais com letras inteligentes e desafiadoras; e continuar a fazê-lo, década após década.

ÉPOCA – Desde 1969, quando lançou “Space Oddity”, Bowie se reinventou a cada álbum. Por que ele optou por essa estratégia?
Doggett - Antes mesmo de “Space Oddity”, Bowie já mudava a sua imagem, tentando manter-se em dia com tudo o que estava acontecendo na cena pop dos anos 1960. Mas ele estava seguindo ideias de outras pessoas, não criando suas próprias. Após “Space Oddity”, sua carreira entrou em declínio durante um ano ou dois, então ele teve uma ideia muito corajosa: se reinventar como Ziggy Stardust, uma estrela do rock’n'roll bissexual de outro planeta. Ele se tornou o grande herói “deslocado”. Teria sido fácil continuar fazendo a mesma coisa dali em diante. Mas Bowie era inteligente o suficiente para saber que quando os artistas se repetem, o público fica entediado. E ele pensava o mesmo sobre sua pessoa. Então, mudando sua imagem e seu estilo a cada dois anos, ele foi capaz de manter seu público interessado e constantemente surpreendido – e de manter a sua própria inspiração artística.

ÉPOCA – Ao fugir dos padrões, o que ele criou? Um novo tipo de rock’n'roll?
Doggett - O que ele fez foi criar um novo jeito de ser um astro do rock. Ninguém jamais conseguiu, por um período tão longo de tempo, continuar mudando e produzindo música que valia a pena. Ele sempre se manteve em dia com o que estava acontecendo no mundo exterior. Por isso, mesmo em seus 50 e tantos anos, depois em seus 60 e tantos anos, ele conseguiu criar músicas que soavam completamente contemporâneas.

ÉPOCA – Que legado ele deixa? Há outros artistas hoje tão camaleônicos e que se engajem em outras áreas da arte como moda, cinema e artes plásticas?
Doggett - 
O legado dele é enorme. Ele foi um excelente compositor de melodias, um letrista fascinante e um ícone visual. Muitos artistas ainda serão influenciados por seu trabalho daqui a 50 ou 100 anos. Ele é um exemplo brilhante para todo artista criativo, em qualquer meio da arte. Sua mensagem era: continuar a tomar riscos, continuar a aprender, continuar a tentar coisas novas, continuar a se forçar ao limite e se manter aberto à criatividade em todos os momentos. Essa é uma lição que nunca vai se desatualizar.

Se existe mais alguém como ele? Acho que não. Pessoas como Madonna e Lady Gaga copiaram sua fórmula de abusar de imagens visuais surpreendentes, mas suas canções não são tão importantes como foram as dele. Essas músicas são divertidas de se ouvir, mas elas têm pouco significado. Ao contrário das de Bowie, que podiam ser comerciais e significativas a um só tempo.

ÉPOCA – O último disco de Bowie, Blackstar, apresenta essas características que marcaram a carreira dele, como a inventividade e o diálogo com outras áreas da arte? O que achou do disco, foi um “adeus” à altura da vida artística dele?
Doggett - Ainda não tive tempo de ouvir Blackstar corretamente. Mas ao ouvi-lo pela primeira vez, percebi que esse disco não se parece com nada que Bowie já fez – e, ainda assim, soa exatamente como David Bowie. É muito triste que ele tenha morrido, mas quão maravilhoso foi ele deixar um álbum aventureiro como este como seu trabalho derradeiro!

Link original da entrevista: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/01/bowie-provou-que-cancoes-comerciais-podem-ter-letras-desafiadoras-diz-critico.html

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